Do pátio às redes: uma década de combate ao bullying

Como a prática ganhou novos espaços e trouxe mais desafios na proteção às crianças e adolescentes

Por Eufrasia Neres

07|04|2026

Alterado em 08|05|2026

Humilhações, exclusões, apelidos cruéis e intimidação. Práticas que, se antes foram consideradas como “brincadeira” ou “coisa de adolescente”, ao longo dos anos têm sido discutidas e combatidas sob o termo”bullying”.

Embora comportamentos hoje reconhecidos como bullying existam há muito tempo, o estudo sistemático sobre o tema começou apenas na década de 1970, na Suécia. Foi o psicólogo Dan Olweus quem deu nome ao fenômeno após investigar uma onda de suicídios de adolescentes. Ele percebeu que o que muitos chamavam de “fatos da vida escolar” era, na verdade, uma forma de violência repetitiva e desigual.

No Brasil, essa discussão é relativamente recente. Foi apenas na virada dos anos 2000 que o termo começou a circular fora do ambiente acadêmico, consolidando-se como política pública há apenas uma década com a lei nº 13.185, sancionada em novembro de 2015 e em vigor desde 2016, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) em todo o território nacional, definindo o bullying como todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo.

O 7 de abril, Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, foi instituído pela Lei 13.277/2016, e impulsionado por um ataque ocorrido em Realengo (RJ), em 7 de abril de 2011, na Escola Municipal Tasso da Silveira (RJ). O caso impulsionou o debate público sobre violência escolar e a necessidade de monitoramento e acolhimento.

Dez anos após a primeira legislação nacional, o cenário nas escolas brasileiras em 2026 revela que a violência não apenas permaneceu, mas ganhou novos espaços. O que antes ficava restrito ao pátio, agora transborda para grupos de mensagens e redes sociais, alimentado por uma onda de radicalização digital que atinge em cheio a subjetividade e a vulnerabilidade dos adolescentes.

A Radiografia da Violência: o que diz o IBGE

Os dados da 5ª edição da PeNSE (2024/2026) confirmam que a escola brasileira está longe de ser um território neutro. O levantamento aponta que o bullying no Brasil tem gênero e cor: enquanto 27,2% dos estudantes relatam sofrer bullying recorrente, as meninas (30,1%) são as principais vítimas de humilhações.

A violência sexual também acendeu um alerta: o percentual de adolescentes que sofreram assédio (toques ou beijos forçados) subiu para 18,5%, mas o recorte de gênero é brutal: 26% das meninas já passaram por isso, o dobro do registrado entre os meninos (10,9%). Além disso, a desigualdade social aparece na pobreza menstrual: 16,9% das alunas da rede pública faltaram às aulas por falta de absorventes, uma barreira invisível à dignidade.

O debate por trás dos muros da elite paulista

Episódios recentes em colégios de elite de São Paulo mostram que a linha entre a “zoeira” e o crime ainda é difusa alvo de disputa pedagógica. No Colégio Vera Cruz, a expulsão de nove alunos em março de 2026 tornou-se um marco drástico. Segundo reportagem da revista Piauí, o estopim foi um caso de importunação sexual e agressão física durante uma viagem de formatura, revelando que o alvo era vítima de ataques continuados – o bullying clássico definido por Olweus – dentro e fora da escola. A instituição optou pelo “ponto final” da transferência compulsória para garantir a segurança da vítima.

O rigor dessa decisão, no entanto, carrega o peso de um histórico recente. Em 2024, o mesmo Vera Cruz ocupou as manchetes quando a filha da atriz Samara Felippo, uma adolescente negra, teve seu caderno rasgado e preenchido com ofensas racistas por colegas. Naquela ocasião, a resposta inicial foi a suspensão das envolvidas – medida considerada insuficiente pela mãe, que denunciou a reincidência do comportamento discriminatório. O contraste entre os dois desfechos levantou uma questão central: a “mão pesada” da expulsão só aparece quando a violência física se torna incontestável, deixando o racismo em um plano de punição mais brando?

No Colégio São Domingos, em Perdizes, a estratégia foi o oposto do ‘ponto final’ aplicado pelo Vera Cruz. Diante de mensagens misóginas e memes desrespeitosos em grupos de mensagens, a instituição optou por suspensões temporárias e pela criação de um Grupo de Trabalho formal em 11 de março de 2026. Em nota enviada à reportagem, o diretor pedagógico da instituição, Luís Fernando Weffort, afirma que as medidas visam enfrentar o fato que “se originou na virtualidade das relações que os adolescentes estabelecem”.

Para a escola, o caminho é a mediação: “Estamos mobilizados em enfrentar essa situação com a sensibilidade, a responsabilidade e o sigilo que competem a uma instituição de educação”, diz o comunicado. As ações incluíram a escuta das estudantes vítimas, conversas reservadas com as famílias e a indicação de “medidas restaurativas cabíveis”.

A secretaria da direção do São Domingos, através de Elisa Maragno, reforça que o combate ao bullying não deve ser apenas punitivo, mas coletivo: “O enfrentamento da violência deve ser encarado como tarefa de todos e, como tal, requer a corresponsabilidade ética e política de toda a comunidade escolar e, para além dela, de toda a sociedade”. Luciana Szymanski, psicóloga e mãe de uma aluna do 9º ano da instituição, reforça que a decisão das famílias e da direção não é uma tentativa de minimizar a gravidade dos atos. E não se trata de passar pano”, afirma ela em áudio enviado para a redação do Nós. Para a psicóloga, a permanência dos alunos é uma escolha consciente pela reeducação: A gente não educa um menino e não ensina um menino a ser antimachista expulsando. Se eles forem expulsos, eles vão para outro lugar reproduzindo isso”.

A gente não educa um menino e não ensina um menino a ser antimachista expulsando — Luciana Szymanski, psicóloga e mãe.

Na visão de Luciana, a escola em que esse comportamento foi gerado tem o dever de transformá-lo, em vez de apenas “jogar o problema para o vizinho”. A instituição suspendeu os cinco alunos identificados e paralisou as atividades regulares para focar em um currículo de urgência sobre masculinidades e respeito.No entanto, essa aposta na ‘justiça restaurativa’, que mantém o agressor no convívio enquanto ele aprende, levanta um debate presente nas escolas da elite, mas que soa como uma realidade distante para quem atua na educação nas bordas das cidades.

A discussão nas escolas públicas de Salvador

Se nos bairros nobres de São Paulo o debate gira em torno do privilégio de discutir entre as opções de reeducar ou punir, em Salvador a discussão ainda é sobre o direito à dignidade humana. Aline, moradora da Boca do Rio e mãe de uma adolescente de 14 anos, viveu o que define como um silenciamento brutal. Sua filha, que venceu três batalhas contra o câncer, encontrou na Escola Municipal Luiza Mahim não o acolhimento da cura, mas a perseguição da omissão.

A violência começou pela negação de uma necessidade fisiológica. Por ser paciente renal, a jovem precisava ir ao banheiro com frequência, o que era impedido por uma professora. ‘Cheguei a ir buscá-la toda urinada na escola por conta de não ser autorizada a ir ao banheiro’, relata Aline em conversa com a reportagem por aplicativo de mensagens. O constrangimento físico tornou-se o combustível para o bullying praticado pelas colegas, que passaram a excluir a jovem e a ameaçá-la de cortar-lhe o cabelo.

Diferente da agilidade institucional vista nos colégios Vera Cruz ou São Domingos, Aline não teve acolhimento. O Conselho Tutelar, que nunca deu resposta às suas denúncias de abuso escolar, só apareceu tempos depois, para questionar por que a menina estava fora da escola, após a mãe ser obrigada a retirá-la por segurança, quando as ameaças chegaram à porta de sua casa.

‘Nós, pais, muitas vezes somos silenciados brutalmente’, desabafa Aline. Seu relato expõe a face da desigualdade: enquanto a elite pode escolher o método de abordagem pedagógica, a mãe periférica precisa escolher entre a educação e a vida da filha. Hoje, a jovem segue em acompanhamento psicológico e psiquiátrico, carregando as marcas de um ódio que, segundo a mãe, foi gerado pela omissão de quem deveria proteger.

Essa sensação de abandono relatada por Aline não é um caso isolado, mas o reflexo do que Lis Pimentel, coordenadora pedagógica em Lauro de Freitas (BA), define como uma “solidão institucional absoluta”. Para Lis, a escola pública tornou-se o único anteparo de uma rede de proteção que, muitas vezes, falha em chegar à periferia.

Eu tô sempre num lugar de mediar conflitos e tentar apagar um incêndio com apenas um copo d’água na mão. — Lis Pimentel, coordenadora pedagógica.

“Eu tô sempre num lugar de mediar conflitos e tentar apagar um incêndio com apenas um copo d’água na mão”, desabafa Lis. Ela explica que a falta de suporte técnico transforma o cotidiano escolar em um esforço de resistência solitário: “A gente tem uma carência de um suporte psicológico especializado dentro das escolas. A gente recebe estudantes com quadros de ansiedade, depressão e traumas, que o bullying, o racismo e o sexismo só fazem piorar. E quando a gente encaminha esse jovem para cuidar da saúde mental na rede pública, ele não é acolhido”, continua Lis, apontando o problema como uma questão institucional do município. “Então a gente continua fazendo o que é possível com o que a gente tem, criando uma rede de afeto, acolhimento e diálogo, mas a verdade é que sem políticas públicas reais pra lidar com todo esse contexto, a gente vai continuar remediando sintomas de um sistema que tá completamente adoecido”.

O diretor Ricardo Monteiro, do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, em Itapuã, compartilha da visão de que a escola é um reflexo do que acontece lá fora, mas defende que o papel da instituição não é o de apenas punir. Para ele, o episódio de violência deve ser transformado em oportunidade de aprendizado.

“Escola não é delegacia. Escola não é juizado. É um ambiente de formação”, pontua o diretor. Ricardo enfatiza que, embora não exista impunidade, o foco está na responsabilização pedagógica: “Tudo que se faz errado […] tem que ser tratado a partir do que deve rezar o ambiente escolar, ou seja, dentro do processo de formação. Não apenas num processo de punição”.

Diferente do debate de expulsão que marcou os colégios de elite, Ricardo é categórico: “Não existe expulsão. A gente não expulsa ninguém. A escola nunca expulsa ninguém. A gente coloca a situação para as famílias e as famílias tomam medidas”. Para o gestor, o olhar precisa ser de cuidado integral, tanto para quem sofre quanto para quem comete a agressão. “A palavra é cuidar. Você tem que cuidar tanto da vítima quanto do agressor, porque um foi violentado e o outro também foi violentado e tem um prejuízo”, explica, referindo-se ao ambiente muitas vezes agressivo em que o jovem agressor foi “forjado”.A grande dificuldade, segundo ele, é a bagagem que vem de fora. “O ambiente escolar é um ambiente seguro […] mas a comunidade escolar vem com muitos vícios que a própria sociedade e a mídia produzem nas pessoas”. Para combater isso, o Lomanto Júnior implementou um Estatuto Antibullying, que protocola as medidas baseadas na legislação, deixando claro que a responsabilização existe para que a cultura da impunidade não se crie.

O fim da “terra sem lei” no digital

O desafio de monitorar o que acontece fora do pátio, citado por Ricardo, ganha um novo aliado neste abril de 2026. Em vigor desde o mês passado, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) estabelece o “dever de cuidado” das plataformas. Agora, o assédio em grupos de mensagens não é mais apenas um “problema da escola”, mas uma responsabilidade legal das empresas de tecnologia, que passam a ser fiscalizadas para garantir a proteção de menores contra conteúdos nocivos e algoritmos que potencializam o ódio.

A lei como amparo

Essa estrutura de “cuidar e educar” agora ganha um novo contorno jurídico. O PL 4.403/2024, que em abril de 2026 já opera como protocolo nacional, estabelece diretrizes para o atendimento a situações de racismo, misoginia e outras formas de discriminação nas redes de ensino. Para Crislei de Oliveira Custódio, doutora em Educação pela USP e coordenadora no Instituto Vladimir Herzog, o avanço está em não deixar a escola sozinha.

“As legislações recentes sobre o tema indicam um olhar específico para a questão e até, em certa medida, um avanço importante por ampliar essa compreensão e propor respostas mais integradas”, analisa Crislei. No entanto, ela faz um alerta crítico sobre a tendência de apenas “punir” o agressor: “É importante reconhecer que o endurecimento de punições, isoladamente, não é suficiente para enfrentar o problema de forma efetiva. Trata-se de um fenômeno atravessado por fatores sociais, relacionais, culturais e institucionais”.

No caso da filha de Aline, o bullying não era apenas uma “brincadeira”, mas uma negação de direitos básicos atravessada por condições de saúde e gênero. Para a doutora, a escola precisa nomear o que acontece: “Muitas vezes, o termo bullying é utilizado como um ‘guarda-chuva’ que acaba por ocultar as dimensões de gênero, raça, orientação sexual, peso, religião ou deficiência que motivam as agressões”. Sem dar nome ao preconceito, a solução torna-se rasa.

Crislei também oferece o respaldo técnico para a “solidão” relatada por Lis Pimentel. Ela argumenta que não se pode cobrar transformação de professores que não têm estrutura: “É indispensável reconhecer que os/as profissionais da educação são sujeitos de direitos. Como esperar que a escola promova vínculos, pertencimento e engajamento entre os/as estudantes se os próprios educadores e educadoras não conseguem se sentir parte da instituição em que atuam?”, questiona, apontando a falta de tempo para planejamento e vínculos estáveis como um entrave à cultura de paz.

A novidade: o foco é a Rede de Apoio. O Estado passa a ser obrigado a fornecer equipes multidisciplinares (psicólogos e assistentes sociais) para acompanhar as vítimas e os agressores, combatendo a “solidão institucional” de famílias e gestores.

O 7 de Abril como compromisso coletivo

Dez anos após a instituição da data, o 7 de abril deixa um recado nítido: a lei no papel é apenas o ponto de partida. Embora o Estado atue em diversas frentes, a profundidade da mediação e a capacidade de resposta das famílias são atravessadas pelo território. Enquanto em escolas de elite o debate avança para o refinamento pedagógico de reeducar sem excluir – muitas vezes sob a pressão de famílias que dispõem de recursos para acionar o Judiciário – em escolas públicas de regiões periféricas a rede de proteção ainda enfrenta o desafio de garantir a dignidade humana mais básica.

Nesses territórios, a “solidão institucional” de gestores e famílias é agravada pela barreira no acesso à justiça. Sem orientação ou condições de custear processos, muitas mães se veem desassistidas e acabam por tomar medidas isoladas de proteção, como a retirada definitiva da vítima do ambiente escolar.

O enfrentamento ao bullying, como define Crislei, exige “centralidade nas dimensões educativas e no fortalecimento de vínculos”. Para que histórias como a da filha de Aline não se repitam, o Brasil de 2026 precisa decidir se o 7 de abril será apenas uma data para recordar casos emblemáticos de violência ou o dia em que o Estado finalmente entregará o suporte técnico que prometeu a quem está no chão da escola, “enxugando gelo” com um copo d’água na mão.